Literatura

Uma conversa com Flávio Medeiros Jr.

flavio medeiros jr
Sim, nós acreditamos!

Flávio Cesar de Medeiros Jr. nasceu e vive em Belo Horizonte (MG), com sua esposa e sua filhinha de um ano de idade. Formou-se em Medicina pela UFMG em 1988, especializando-se em Oftalmologia.

Publicou seu primeiro romance em 2004: “Quintessência” (Editora Monções), história policial de ficção científica. Seu segundo romance, “Casas de Vampiro” (Tarja Editorial), de ficção científica e terror, foi publicado em 2010. Seu conto publicado na coletânea “Paradigmas 2” (Tarja) foi selecionado para constar no volume “Paradigmas Definitivos” (Tarja – 2012). Tem outros contos e noveletas nas antologias “Steampunk” (Tarja), “Imaginários 1” (Draco), “Vaporpunk” (Draco), “Space Opera” (Draco), “Assembleia Estelar” (Devir) e “Dragões” (Draco). Em 2011, seu conto “Por um Fio” foi premiado em segundo lugar no Concurso Hydra, sendo publicado na revista americana “Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show”. Em 2012, sua noveleta “Pendão da Esperança” ganhou o Prêmio Argos na categoria “Melhor História Curta”. No final do mesmo ano, seu conto “Conto de Fadas” ganhou o segundo prêmio no XII Concurso de Contos Petros. É membro do Clube de Leitores de Ficção Científica (Brasil) e da Science Fiction & Fantasy Writers Association (EUA).

Continua escrevendo compulsivamente.

Blog: “A Quintessência”: http://a-quintessencia.blogspot.com.br/

Homepage: http://flaviocmedeiros.wix.com/flavio-medeiros-jr#

1) A medicina e a literatura fantástica têm algo em comum? Há influência entre essas duas vertentes da sua carreira?

Flávio Medeiros Jr. Penso que todo autor expressa em sua obra fragmentos daquilo que leva dentro de si: sonhos, fantasias, medos, dúvidas, observações, ambições e, acima de tudo, conhecimentos, sejam estes mais sedimentados, adquiridos ao longo da vida, ou até mesmo o resultado de alguma leitura ou pesquisa recente. Nesse sentido, como profissional médico, penso que seria inevitável que essas duas vertentes algum dia se tangenciassem.

Especificamente no caso da literatura fantástica, compreendo que a medicina pode figurar nela em intensidades diferentes, de acordo com cada subgênero. Em ordem crescente de incidência, eu diria que você pode ver medicina em obras de fantasia, de terror, mas principalmente de ficção científica. Simplesmente porque, sendo a medicina uma ciência, carrega em si mesma um viés especulativo, que é o que possibilita sua evolução. Em minha especialidade, por exemplo, a Oftalmologia, hoje os maiores avanços são resultados diretos do incremento da tecnologia: você identifica uma necessidade, seja clínica ou cirúrgica, e vai imaginar, em primeiro lugar, a forma de resolvê-la; depois, tentar construir ou inventar a solução para o problema. Antes que esse avanço se torne realidade, ele pode existir na literatura especulativa, retratado em uma obra de FC como uma realidade que influencia diretamente um número variável de pessoas ao redor. No meu caso em particular: acabo de concluir a primeira redação de um conto longo de terror chamado “A Escuridão”, que trata em linhas gerais do medo do escuro, onde utilizo explicitamente meus conhecimentos sobre glaucoma, que fazem parte do meu dia a dia profissional.

Na ficção científica: em “Quintessência”, meu primeiro romance, há uma descrição bem didática de um determinado tipo de epilepsia que de fato existe, e recursos diagnósticos para o mesmo que ainda não existem no mundo real; em “Casas de Vampiro”, meu segundo romance, inseri minha experiência em pronto-socorro de trauma (existe até uma sequência aterrorizante no hospital onde trabalho) e em minhas visitas ao Instituto Médico Legal. Em uma noveleta ainda inédita, a solução da trama passa diretamente pelo quadro clínico de uma determinada infecção fúngica. E por aí vai, cada escritor vai reproduzindo nas suas páginas as impressões digitais que já deixou antes nos lugares por onde passou.

Eduardo Kasse. É muito interessante como todas as vertentes da nossa carreira e da nossa vida se mesclam aos nossos escritos, mesmo que involuntariamente. Como profissional que lida diariamente com planejamento estratégico da informação, ao produzir um romance ou um conto eu sempre gosto de analisar muito bem os cenários, as personagens e os caminhos imaginados para a história. Estudar, pesquisar e aprender! Outra paixão que tenho são os cães e no O Andarilho das Sombras um “personagem” muito simpático é o Crucifixo, um cãozinho. Acho que escrever é colocar a nossa essência nas palavras.

2) Em suas obras, sempre temos referências a autores como Jules Verne, Herbert George Wells e Edgar Allan Poe. E dos brasileiros, quem lhe inspira?

FMJ. Você está se referindo às minhas histórias do universo ficcional que criei, chamado “Guerra Fria Vitoriana”, onde faço uma homenagem explícita e rasgada aos autores desse período histórico. Mas, seja no que se refere a autores internacionais ou brasileiros, geralmente na construção de minha prosa, ou na evolução de meu estilo, não me vejo preso a nenhum autor em particular, no que concerne a “referências”. Prefiro me considerar à deriva no mar da intertextualidade: vou lendo, lendo e aquelas coisas que me impressionam, que ficam dentro de mim por um tempo além daquele dedicado á leitura, depois emergem de forma espontânea no momento de criar.

O mais próximo disso, se você me perguntar quem eu queria ser quando crescer, eu responderia Stephen King e Philip Roth. O primeiro, pela capacidade de criar personagens extremamente acessíveis e identificáveis com o próprio leitor, mesmo nas situações mais inverossímeis. Destaque para “O Iluminado” (o livro), onde ele narra magistralmente a crise de relacionamento de um casal pela ótica de seu filho pequeno, e “Salem’s Lot”, que nunca teve um título decente em português, especialmente na sequência onde ele alterna a pregação protocolar de um padre no enterro de uma criança com os pensamentos na mente do pai absolutamente enlouquecido pela dor. Genial. Quanto ao segundo, embora seja um escritor principalmente do mainstream, considero “Complô Contra a América” um de meus livros favoritos de todos os tempos, graças à sutileza e delicadeza como ele retrata a realidade brutal de um EUA impregnado pelo nazismo pela ótica inocente de um garoto judeu de nove anos. É uma obra-prima da história alternativa.

Quanto aos brasileiros, há vários que admiro e leio com grande prazer, como Carlos Orsi, Max Mallmann, Ana Cristina Rodrigues, Octavio Aragão, Cristina Laisaitis (que vou começar a ignorar se continuar escrevendo tão pouco), Fábio Fernandes, Eric Novello, e sei que estou aqui cometendo algum esquecimento injustificável pelo qual serei cobrado depois, mas vou passando batido para não correr o risco de esquecer três nomes que não posso deixar de mencionar: um é o Braulio Tavares, que escreve pouca literatura fantástica, mas cujos escritos me tocam e inspiram profundamente. Os outros dois são o Roberto Causo e o Gerson Lodi-Ribeiro, minhas duas primeiríssimas referências em termos de literatura fantástica brasileira, nos tempos em que eu ainda era um neófito escritor iniciante e isolado em Andrômeda Gerais. Eu estava pensando nisso enquanto gravávamos o podcast durante a Segunda Odisseia de Literatura Fantástica em Porto Alegre, em abril. Eu estava orgulhoso de estar fazendo aquilo do lado desses dois caras. O Gerson, em especial, foi decisivo como inspirador em momentos cruciais de minha vida como escritor; primeiro, quando terminei meu primeiro romance de FC e não sabia absolutamente o que fazer com ele. Descolei o e-mail do CLFC e o Gerson, o presidente da época, me passou o caminho das pedras que deu início ao que veio depois. Mais recentemente, quando saiu minha noveleta “Os Primeiros Aztecas na Lua” (Vaporpunk), o Gerson me disse durante um almoço: “Você vai querer voltar a esse universo”. Foi a centelha de onde nasceu o universo ficcional da Guerra Fria Vitoriana, cujo romance fix-up deve sair este ano, e que o próprio Gerson gentilmente prefaciou, além de ter me ajudado, com seu vasto conhecimento de história alternativa, a tapar alguns buracos do universo ficcional. Bom, acho que esses são os caras.

EK. Já li a maioria desses autores que você indicou e concordo sem qualquer restrição! E me sinto muito feliz em ter conhecido pessoalmente vários deles. A literatura nacional está em um ótimo patamar e acredito que um dia os distribuidores, as livrarias e as editoras entendam que ela pode ser rentável. Só assim conquistaremos mais espaços. E cabe aos leitores nos ajudar nessa tarefa de divulgar, sugerir e compartilhar.

3) O que lhe motiva a criar histórias?

casas de vampiro
Casas de Vampiro – Tarja Editorial

FMJ. Rapaz, essa doença é congênita. Lá pelos nove anos de idade pedi ao meu pai dinheiro para comprar um caderno; não era uma necessidade da escola, foi uma vontade que surgiu. A grana deu para comprar dois cadernos, sendo que na capa de um havia um veleiro em alto mar e na do outro uma caveira sorridente segurando uma abóbora de Halloween. Ali comecei, simultaneamente, a escrever meus dois primeiros romances (inacabados graças à inexperiência e indisciplina da juventude): “A Cidade Submarina” e “As Aventuras de Falangeta”.

O problema foi que nasci com uma imaginação hiperdesenvolvida e uma aptidão natural para o português, e tinha que canalizar isso para algum lugar. Na escola primária e no colégio, minhas redações frequentemente tinham algum destaque, sendo lidas inclusive para outras turmas. Na época do vestibular, e depois na faculdade, minha escrita caiu praticamente a zero, pois a medicina me absorvia muito. No máximo, escrevi umas peças de teatro, que foram representadas por grupos amadores, e, durante o curso universitário, escrevi uma saga em capítulos retratando meus colegas de turma e as situações que vivíamos em um ambiente de faroeste. Chamava-se “Pistoleiros de U.F.M.City, ou Quando os Cowboys Cheiravam a Formol”. Essa fez sucesso. Mas a coisa só ficou séria tempos depois. Eu tinha ido morar sozinho e só tinha um colchão de molas, uma geladeira, uma TV e um computador. Nesse momento de fragilidade, minha vida virou de cabeça para baixo: perdi o principal emprego que me sustentava e terminei um namoro de seis anos. Pensei: “À noite vou estar sozinho em casa. Preciso arranjar alguma coisa para não ficar doido com meus pensamentos. Já sei! Vou escrever um livro!” E assim, em um ano exato, nasceu o “Quintessência”.

Deu certo, e não parei nunca mais.

EK. Conhecer os porquês sempre me fascina! A vida é riquíssima e acho interessante como os escritores canalizam suas alegrias, perdas ou frustrações na escrita. Saber quais foram os backgrounds que levaram a isso ou aquilo pode nos trazer várias lições.

Enfim, esse foi o nosso bate-papo! Espero que tenha gostado! Mas, antes de fechar a conta, o Flávio respondeu mais duas perguntas:

4) O que podemos esperar de Flávio Medeiros Jr. para esse ano?

A novidade mais imediata sai na antologia digital “Dystopia”, organizada pelo Cândido Ruiz, e é um conto meu de space opera chamado “Monstros Genocidas”. Na antologia Steampunk 2, da Tarja, deve sair uma história alternativa steampunk retratando a Batalha de Little Big Horn, onde morreu o general Custer. Depois, talvez para lançamento no Fantasticon, espero que saia pela Draco o romance fix-up a que já fiz referência: “Homens & Monstros – A Guerra Fria Vitoriana”, com cinco noveletas e mais um conto, cujo tema de fundo é a guerra, a ética por trás dela, e como ela transforma as relações políticas e econômicas entre os povos e, direta ou indiretamente, as vidas das pessoas. Ainda estou participando de uma história policial envolvendo vários autores, da qual ainda não posso falar muito, pois os editores pediram segredo. E começa a se delinear no horizonte a publicação, em uma futura antologia, de uma história alternativa dieselpunk sobre a Guerra de Canudos. Isso sem falar de uma ou duas noveletas que andam zanzando por aí, cujo destino ainda é incerto.

No plano mental, estão praticamente prontos dois contos: um longo, chamado “Por Que Estamos Sós”, e um mais curto, chamado “Abdução”, ambos de FC. Quero iniciar, sem mais demora, meu romance-continuação do “Quintessência”, um pedido dos leitores antigos, e para o qual finalmente tive uma boa ideia que julgo valer a pena. Também estou envolvido na tradução de um conto para o português, escrito pelo Anatoly Belilovski, um escritor de FC russo que mora em New York, e com quem fiz amizade através do fórum da SFWA. Gostaria de ver esse material circulando por aqui. No fim da fila, cada vez sendo empurrado mais para trás pelos textos de literatura fantástica, vem o projeto de um romance mainstream que tem o título provisório de “Bala Perdida”, sobre o mundo pouco divulgado e conhecido do pôquer profissional no Brasil. Foi uma semente lançada por um jogador de pôquer que leu o “Quintessência”, e colocou à minha disposição todos os seus contatos no ramo. Tive a ideia geral da história, que devagarzinho vai se delineando. E quem sabe mais o que vem por aí, furando a fila…

5) E para terminar, para você escrever é:

É respirar. Com todos os benefícios para o corpo e para a alma que advêm desse ato.

2 Comments

  1. Ótima entrevista! Muito legal conhecer melhor o autor! Li o conto do Flávio de Dragões e fiquei simplesmente fascinada pela sua escrita absorvente e intrigante. Com certeza lerei mais contos do autor. E concordo: escrever é respirar. Muito sucesso para você, Flávio, e é claro, para você também, Eduardo, sempre um profissional exemplar e muito dedicado em tudo o que faz!

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