Literatura

Uma conversa com Roberto de Sousa Causo

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Roberto Causo by Silvio Alexandre

Fã de FC começou a escrever apenas em 1985, quando tinha uns 19 anos.

Na época, o escritor iniciante de ficção científica começava em fanzines como Boletim Antares, Hiperespaço e Somnium, como foi o meu caso – lembrou-se.

Publicou pela primeira vez num veículo profissional, a revista francesa Antarès, em 1989 e, de lá para cá, tem pelo menos uma história lançada por ano. Hoje são cerca de 75 histórias (em mais de 130 publicações) e três romances, e histórias vistas em onze países.

Muitas dessas histórias apareceram em revistas bem obscuras, como cabe ao journeyman writer – mas algumas apareceram em veículos de destaque como Playboy, Cult e até em uma revista de FC propriamente, a Isaac Asimov Magazine.

Sou mais lembrado, acredito, por contos de fantasia e FC publicados na revista de RPG Dragão Brasil, na década de 1990. Também colaborei com jornais e revistas como ensaísta, escrevendo esporadicamente para veículos tão diversos quanto Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Ciência Hoje, Extrapolation, Science Fiction Studies, The Magazine of Fantasy & Science Fiction, e Locus–The Magazine of the Science Fiction and Fantasy Field, revista da qual sou o correspondente brasileiro desde 1989.

Recentemente, a pesquisadora americana M. Elizabeth Ginway escreveu um verbete sobre o Causo na The Encyclopedia of Science Fiction (Terceira Edição). Está em http://www.sf-encyclopedia.com/entry/causo_roberto_de_sousa.

Site pessoal: http://robertocauso.com.br/

GalAxis: Conflito e Intriga no Século 25: http://galaxis.aquart.com.br/

1) Você é um escritor com uma bela representatividade na literatura de FC & Fantasia nacional. Do seu início até hoje, você vê uma evolução no mercado ou os padrões são os mesmos?

Roberto de Sousa Causo. Quando comecei a escrever, em 1985, e a publicar, em 1989, os espaços para ficção científica e fantasia brasileiras eram muito raros e de difícil acesso. As grandes editoras estavam fechadas para a maioria de nós, e entre os poucos editores e veículos que se abriram para os escritores brasileiros desses gêneros estavam as Edições GRD, a Editora Aleph (que publicou apenas André Carneiro), e a Caminho (em Portugal), além das revistas Isaac Asimov Magazine (1990-1993) e Antarès–Science Fiction et Fantastique sans Frontieres (na França). Existiram outras tentativas interessantes, como a Ano-Luz e a revista Quark (2001), mas de pequena duração.

O mercado, portanto, evoluiu muito no sentido de que hoje é bem mais fácil publicar – há uma dúzia ou mais de pequenas editoras formando catálogo e “estábulos” de autores, algumas efetivamente procurando escritores, tanto quanto sendo procuradas por eles. E existem ainda editoras como a Devir, a Draco, a Estronho e a Tarja, que buscam atualizar o campo pela promoção de subgêneros como o steampunk, o new weird, o cyberpunk, a fantasia folclórica, a space opera ou a literatura queer.

A verdade é que nunca houve tanta FC e fantasia sendo publicada, mesmo que admitindo que, na maior parte, em esquemas sob demanda, de edições limitadas, e-books quase-anônimos, e de antologias compostas por autores que pagam para participar. Mas é um momento que possui até os seus autores best-sellers, como André Vianco, Eduardo Spohr, e Raphael Draccon. Já existe no contexto presente uma revolução, mas uma revolução que tem o potencial de provocar outras revoluções. Uma delas viria das atualizações que eu menciono acima. Outra, do diálogo entre a potência temática e a incrível oferta de autores, com a situação maior da literatura brasileira – o diálogo entre ficção especulativa e o mainstream literário, algo proposto de maneiras diferentes por Nelson de Oliveira e Felipe Pena (eu também já havia proposto esse diálogo, em diferentes instâncias, mas partindo antes de tudo de um fortalecimento da FC e da fantasia nacionais). Para realizar esse diálogo, essa literatura escrita aqui precisa se tornar relevante, em termos literários ou em termos de uma exploração relevadora da experiência brasileira.

Não sei o que você quis dizer exatamente com mudanças de padrões do mercado, mas digamos que a maior revolução viria de uma nova maneira de atribuir valor a essa produção de FC e fantasia nacionais. Ainda olhamos demais para fora e de menos para dentro, na hora de atribuir valor literário a obras que pertencem a gêneros tradicionalmente desprezados pela crítica e pelo establishment. Desse jeito, vamos ser sempre uma rêmora grudada na barriga de um peixe maior.

Eduardo Kasse. É muito interessante conhecer os panoramas do mercado de literatura fantástica e de ficção científica de décadas passadas. Toda essa história serve como lição e nos traz a reflexão: o que é preciso aprimorar?

Tivemos evoluções com o surgimento de editoras de nicho – não gosto muito do termo, mas usei para ilustrar -, mas ainda é preciso subir muitos degraus, seja nos canais de distribuição, nos meios de divulgação e publicidade e, principalmente, na percepção de valor pelo público.

No nosso país, a visão: o que vem de fora é melhor é muito arraigada e isso prejudica os profissionais nacionais, que nada perdem em qualidade para os estrangeiros. E isso não é exclusividade da literatura.

Estamos em uma fase de transição e as visões estão mudando, ainda a conta-gotas, mas estão.

selva_brasil2) E os leitores? Na sua visão eles estão mais exigentes e experimentados?

RSC. Sinceramente, como houve a entrada de uma ou duas novas gerações no campo, não sei dizer com precisão. Há ainda um tênue discurso de que para se fazer sucesso é preciso escrever banalidades e de maneira simplória, mas parece que os editores estão fazendo, em algumas instâncias, um esforço honesto de elevar a qualidade e alcançar outros públicos. Algo que dá para dizer com mais segurança, porém, é que, em comparação com o momento anterior, os leitores de fantasia especificamente estão sim mais experientes. Isso por que a fantasia foi o gênero mais beneficiado com a explosão editorial iniciada com os sucessos de Harry Potter e de O Senhor dos Anéis. Antes desse boom, a publicação de fantasia aqui foi incomum e inconstante.

EK. Eu gosto de seguir a postura: escreva o que acredita e lhe dá tesão e, certamente, haverá público para consumir o seu “produto”.

Vivemos em uma época plural, em que as pessoas estão ávidas pela informação e pelo novo, então há espaços para todos. E essa diversidade é muito interessante, pois abre novas janelas. E quem conseguir explorá-las, aumenta as chances de sucesso – não no sentido efêmero da fama.

O importante é encarar o trabalho de criação de maneira profissional e com dedicação. Afinal, fazer direito não é diferencial competitivo, é obrigação!

3) A guerra é um tema presente nas suas obras. Esse também é o seu gênero mais consumido como leitor?

RSC. Acho que sou mais onívoro do que dou a entender. Leio muita ficção científica, fantasia e horror, além de hard-boiled e ficção de detetive (Raymond Chandler é o cara), e algum mainstream nacional e estrangeiro – Cormac McCarthy é um dos meus autores favoritos. Mas claro, ficção militar, dentro ou fora da ficção científica, também é uma preferência, embora não a maior. Meus autores favoritos nessa área são o falecido Anton Myrer, e David Poyer e sua série duradoura de aventuras navais do oficial da marinha americana Dan Lenson. Na FC, estou acompanhando uma série já terminada, escrita por Karen Traviss que combina FC militar e antropológica, e outras que são leitura esporádica – livros de David Drake, David Weber, Elizabeth Moon, Fred Saberhagen, Jack Campbell, Poul Anderson e outros.

Quanto ao tema militar em si, eu sempre penso no que Sebastian Faulks escreveu na introdução do The Vintage Book of War Fiction (Vintage, 1999):

Quando a jovem forma literária do romance decidiu, mais ou menos 250 anos atrás, que faria mais do que contar histórias, que era adequada de modo único ao desenvolvimento psicológico interior e à narrativa sem limites para explorar a ‘natureza humana’ e que esse seria, para muitos escritores e leitores, seu maior objetivo, então você pensaria que os romancistas mais ambiciosos iriam buscar quais condições de existência ofereciam circunstâncias mais extremas e portanto, presumivelmente, mais recompensadoras para o seu estudo. A guerra, certamente, teria sido a resposta.

EK. Excelente, Causo. Acho que todo escritor precisa ser onívoro – gostei muito disso – a fim de enriquecer as suas experiências e mesmo visões sobre diversos temas, mundos, realidades.

E, tudo o que consumimos, tudo aquilo que absorvemos consciente ou inconscientemente se reflete em nossos escritos. Assim, fazendo uma analogia com os pintores, criamos a nossa paleta de cor: ferramenta essencial, mas que depende de habilidade, conhecimento e inspiração para fazer os traços certos no papel.

Aliás, para um escritor, tudo, absolutamente tudo pode se tornar um bom motivo para escorrer as palavras para o papel – ou tela do seu dispositivo preferido.

gloria_sombria4) O futuro, o universo e a tecnologia também são recorrentes nos seus escritos. Para você como é “especular” sobre o que ainda não existe? Há muitas pesquisas ou simplesmente deixa a imaginação fluir?

RSC. Eu gosto de pesquisar, porque sempre se aprende alguma coisa. E pode parecer paradoxal, mas a imaginação flui quando acontecem interações inesperadas, por isso a pesquisa também pode ser um elemento de inspiração e que força o escritor a explorar caminhos diferentes.

Escrever FC militar obriga a gente a olhar para o contexto político global, pós-11 de setembro. Acho importante que se agregue à FC brasileira aquele espírito de investigação do presente pela extrapolação e pela especulação tecnológica e social. Uma ficção científica que imagina o Brasil do futuro próximo, daqui a trinta ou cinquenta anos, sempre foi bastante rara em termos de uma imaginação social, política ou tecnológica. Bastante rara e bastante necessária, se a gente quer realizar aquela revolução que mencionei acima, e que depende do gênero se tornar relevante e ser reconhecido como tal tanto pela comunidade de FC e fantasia, quanto pelo establishment literário. A nossa ficção científica está devendo uma visão do “Brasil emergente” e de importância no cenário mundial.

EK. Quando faço as minhas pesquisas, sempre imagino “brechas” na história e aproveito muitas delas nos meus escritos, vou tricotando as cenas ao redor de um fio real e conhecido. É incrível como a nossa mente funciona. Pensar fora do linear e do exato é bem interessante.

E o bom que essa minha “visão de escritor” também me ajuda no trabalho como analista de conteúdo, pois, por pensar nas mais diversas e até mesmo remotas possibilidades, consigo criar soluções bem interessantes e inovadoras.

E isso só reforça o conceito de que todo conhecimento é útil.

Enfim, esse foi o nosso bate-papo! Espero que tenha gostado! Mas, antes de fechar a conta, o Causo respondeu a mais duas perguntas:

5) O que podemos esperar de Roberto Causo para esse ano?

Até aqui tenho tido um ano muito bom, com sete publicações de ficção, diversificadas – embora com uma maioria de textos já publicados antes. Três são de e-books, e um novo livro nas livrarias físicas: Glória Sombria: A Primeira Missão do Matador (Devir).

Além desse livro, que faz parte da série As Lições do Matador, saíram mais duas dentro da mesma série: “A Alma de um Mundo” (como e-book pela Draco) e “Tengu e os Assassinos” (na antologia Sagas Volume 4: Odisseia Espacial, da Argonautas). De modo que eu sinto que a série, na qual tenho concentrado meus maiores esforços, está circulando mais e encontrando leitores.

Mas tenho mais material para sair até o fim do ano, eu espero. Entre o material prometido para este ano estão a novela Terra Verde e a noveleta “Voo Sobre o Mar da Loucura” como e-books pela Draco, e o conto “A Memória da Espada”, na antologia de fantasia arturiana organizada por Ana Lúcia Merege & Erick Santos Cardoso para a Draco, Excalibur: Histórias de Reis, Magos e Távolas Redondas (com textos de Ana Cristina Rodrigues, Merege, A. Z. Cordenonsi, Cirilo S. Lemos, Marcelo Abreu, Octávio Aragão, Pedro Viana e outros). Além de outro eBook pela editora montada por Ademir Pascale e Marcelo Bighetti, com o título de Órbitas Mortais. Fico muito grato por contar com o interesse dessas editoras associadas à Terceira Onda da FC Brasileira.

Para 2014, espero que saia o segundo livro das Lições do Matador, Mestre das Marés, e mais um punhado de contos.

6) E para terminar, para você escrever é:

Compromisso total.

One Comment

  1. Muito bacana esse bate papo! Concordo plenamente e adorei o termo “onívoro”! Sim, todo escritor deve consumir de tudo, assim ampliará seus horizontes e terá sempre novas visões e mais ideias para seu trabalho. E lendo toda essa dificuldade que o Roberto teve para ser publicado e todo empenho dele, a gente se sente ainda mais motivado para se empenhar mais e mais, já que agora as oportunidades são bem maiores mesmo. É uma boa coisa ver como o país está melhorando nesse sentido, com mais editoras que dão chances para os novos escritores, mais oportunidades para sermos lidos. E estou bem ansiosa por essa antologia Excalibur!

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