Literatura

A percepção de valor dos trabalhos nacionais

2014. Não faz muito tempo. Era tarde de autógrafos do Guerras Eternas, terceiro livro da Série Tempos de Sangue, na loja Geek.etc.br. Estava eu arrumando os livros na mesa, um pouco antes do evento começar, quando um dos clientes que lá estavam me aborda:

– Livros interessantes. Sobre o que falam?

– São fantasias históricas que trazem imortais vivendo entre nós.

– Eu dei uma olhada na sinopse de O Andarilho das Sombras e gostei demais. Mas não conheço esse autor… Kasse.

– Prazer sou eu!

– Há legal.

– Se curtiu, eu posso autografar ele para você agora, mesmo sem ter começado ainda, sem problemas!

– Eu não leio nacionais.

Então, simplesmente virou as costas e saiu com a sacola cheia de outros livros e quadrinhos. Todos de estrangeiros, provavelmente. Veja, não há demérito nenhum nisso! Eu também leio autores de todas as nacionalidades. Se o tema me interessa, não me importo de qual país é o autor. O foco desse post não é esse 😉

Confesso que foi um baque. Não havia ouvido isso ainda, pois não costumava participar de eventos. Ainda bem que a noite de autógrafos foi maravilhosa! Reencontrei muitos amigos, fiz novos, autografei bastante.

Parece estrangeiro!

De lá pra cá fiz muitos eventos. Imensos como Bienais e CCXP. Pequenos como em Artist’s Alley em cidades do interior e da periferia. Curto ambos, cada um com o seu público, suas peculiaridades.

No começo, de 2014 até meados de 2017, não foram raras as vezes que ouvi:

  • Não leio nacionais!
  • Obras brasileiras são ruins!
  • Só li brasileiros para prestar vestibular.
  • Isso é cópia de autor tal (mesmo o livro brasileiro tendo sido publicando antes).
  • Se fosse de um autor conhecido eu levava.
  • Só tem livro de brasileiros?
  • Parece estrangeiro!

E muitas outras variantes. Não só eu, mas muitos dos escritores que estavam comigo nos estandes da Draco em eventos maiores têm histórias assim para contar.

Tristeza, raiva, vontade de largar tudo… Não era fácil ouvir isso, porque era como se todo o suor, todo o trabalho para ofertar um produto de qualidade não valessem de nada.

Contudo, isso não é exclusividade da literatura e dos quadrinhos. Em praticamente todas as áreas os brasileiros têm esse complexo de vira-latas.

Que legal, é nacional!

Como escolhi ser escritor, tive de aprender a lidar também com as frustrações.

Segui adiante.

A cada dia, a cada novo evento, a cada novo trabalho, mais leitores interagiam de forma muito positiva comigo, pelas redes sociais, pelos meus sites e pessoalmente.

E, nos últimos tempos, nos últimos eventos, nunca mais ouvi nenhuma crítica ou menosprezo por ser nacional. Ao contrário, as pessoas agora curtem isso! Querem conhecer mais, querem tirar fotos, querem indicar para amigos que gostam da temática.

  • Que legal! Eu li o livro de tal autor e adorei. Vou conhecer o seu também!
  • Nossa, sua série tem cinco livros! Vou ler o primeiro e se gostar depois compro os demais.
  • Não curto esses temas, mas você pode me indicar alguém que escreva sobre… Nacional, please!
  • Caramba, o desenhista também é brasileiro? Esses traços são melhores do que muitos gringos.

A percepção de valor dos profissionais nacionais mudou. E essa evolução só aconteceu pela qualidade de quem está trabalhando (batalhando) para fazer acontecer, mesmo com todas as adversidades do nosso mercado. Mesmo com essa onda de pouco estímulo à cultura e às artes.

Ainda há muito o que fazer.

Ainda há muitas arestas para apararmos.

Ainda é preciso ter uma profissionalização maior, mais sustentável.

Mas já ganhamos muitas batalhas.

E eu sou grato por fazer parte desse exército que luta para levar aos leitores boas histórias.

Vamos que vamos!

Até mais.

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