Eu lhe dei a paz

– Bendito seja o nosso Senhor! – olhou para cima. – Enfim as minhas preces foram ouvidas!

– Senhor! – falou enquanto se flagelava com a tira de couro cru – Perdoa-me! – Sagrada Virgem, intercede por mim… Tu que ficaste intacta mesmo após o parto do teu filho… Perdoa-me! Eu não resisti… Estou tão suja… Imundo é o meu ser… Entreguei o meu corpo ao prazer do demônio!

– E foi bom pelo menos? – perguntei baixinho.

Como se saísse de um estado de transe, ela virou a cabeça para o meu lado, mas seus olhos ainda não me viam realmente. E ela era bonitinha! Longe de ser linda, mas mesmo assim era um desperdício uma jovem assim vir se enclausurar em um mosteiro. Homens certamente brigariam por mulheres muito mais feias e fedidas.

Depois de alguns segundos ela deu algumas piscadelas rápidas e quando me viu ameaçou gritar. Porém, na velocidade de um pensamento, eu fui para trás dela e tapei a sua boca gentilmente. Ela me mordeu com força, mas aguentei firme.

– Calma… – sussurrei no seu ouvido. – Vamos apenas conversar.

Ela parou de lutar e sua respiração se restabeleceu. Seu coração se acalmou e as palpitações mantinham agora um ritmo constante.

– Se eu tirar a mão da sua boca, você não vai gritar, não é? – perguntei diminuindo a pressão nos seus lábios. Ela balançou a cabeça e eu tirei a mão devagar.

– Quem é você? – perguntou ao cobrir os seios nus com as mãos.

– Sou um anjo enviado pelo senhor – falei sorrindo.

Peguei um pano branco e molhei-o em uma bacia de barro que ficava sobre uma mesinha simples de madeira. A água tinha um perfume de laranjas maduras. Limpei os seus ferimentos delicadamente enquanto ela chorava baixinho. Os bicos dos seios, durinhos e pontudos, tentavam minha vontade. Eles escapavam por entre os dedos dela e sua visão me enlouquecia. Queria mordê-los naquele instante, mas me controlei.

– Deus está muito bravo comigo? – perguntou com os olhos muito vermelhos.

– Não, minha criança! – passei a mão nos seus cabelos castanhos encaracolados – Ele me mandou para ouvir as suas súplicas.

– Eu não devia… – ela começou a chorar alto e a soluçar.

– Tudo bem! – abracei-a e senti o seu corpo quente. Seu coração batia forte e cheio de vida.

– Vivo aqui desde os doze anos – soluçou – A minha mãe morreu leprosa e depois disso meu pai me abandonou. E por isso vivo aqui!

Ela abaixou a cabeça e começou a chorar novamente, como uma criança que recebe um castigo sem ter cometido qualquer falha.

– Eu nunca quis ser freira! – gritou e socou a cama. – Eu nunca quis!

– Deus sabe, e por isso me mandou para acabar com a sua dor – falei, enxugando as lágrimas da sua face com os dedos.

– Bendito seja o nosso Senhor! – olhou para cima. – Enfim as minhas preces foram ouvidas!

– Está pronta para a liberdade, doce criança? – segurei suas mãos.

– Sim, querido anjo! – lágrimas abundantes escorriam pela sua face. – Esperei isso por toda a minha vida!

– Então feche os olhos – falei beijando-lhe a testa. – Feche os olhos e se imagine voando para longe dessa prisão, como um pássaro rumo aos belos campos verdes do sul.

Ela fechou os olhos.

E eu os beijei delicadamente.

– Sim, eu estou vendo! – gritou em êxtase – Estou voando por sobre um campo florido! Sinto o meu corpo leve! – falou abrindo os braços.

Então eu cravei os dentes no seu pescoço.

Ela nada sentiu.

As ilusões eram verdadeiramente reais no seu coração. A freirinha ansiava por isso havia anos.

Ela morreu rapidamente.

E eu a deixei deitada na sua cama enquanto o fogo vermelho percorria as minhas veias.

Saí tão silenciosamente quanto entrei. Não como um demônio de perdição, mas como um bom anjo do Senhor.

Se houver mesmo um Juízo Final, estou ferrado.

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